
Uma das obras mais contundentes da 52ª Bienal de Veneza (2007), Cuide de você foi mostrada também na França, no Canadá e em Nova York. A exposição reúne textos, fotos e vídeos nos quais mais de cem mulheres interpretaram, a convite da artista, uma carta de rompimento amoroso recebida por ela de um ex-amante, o escritor Grégoire Bouillier. No intuito de “esgotar” as mensagens contidas no texto e em seus subtextos, Calle recrutou para a tarefa “leitoras” de especialidades e profissões diferentes, entre mulheres estranhas e amigas, anônimas e famosas.
O rol de mulheres que aceitaram o desafio inclui sua mãe; as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin; e profissionais como linguista, taróloga, juíza, antropóloga, designer, sexóloga, assistente social e clarividente, entre outras. Ao aplicar sua ótica pessoal ou o “filtro” de sua especialidade à carta, elas produziram um rico panorama de respostas – técnicas, acadêmicas, performáticas e emocionais – ao desafio da artista.
O texto é dançado por bailarinas, analisado por críticas, recriado por escritoras. A criminologista atribui a carta a “um manipulador, cujos relacionamentos com outras pessoas são baseados na dominação e na ascendência”. Para a headhunter, ela apenas revela um “candidato com discurso intrincado”. À especialista em etiqueta, a frase “Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail” sugere um relapso, que “deveria ter respondido imediatamente”.
A ideia de desenvolver, em torno da carta, uma investigação que envolvesse o repertório profissional de muitas mulheres surgiu dois dias depois de receber a mensagem do ex-amante. Não é por acaso que a frase Cuide de você serve de título à obra. “Foram essas palavras que me deram o estalo para o trabalho”, conta Calle. “Esse é o meu método de cuidar de mim. Reverter as coisas em minha vantagem, para não sofrer com elas”, relata. “Recebi um e-mail terminando um relacionamento. Não sabia o que responder. Ele terminava com a frase Cuide de você. Foi o que fiz.”
Sophie Calle é a artista da percepção sobre o privado”, diz Danilo Santos de Miranda. “O que a faz tão singular é que este privado não é o do outro, mas seu próprio. Ela é capaz de se transformar de sujeito da ação a objeto. Passar de figura fragilizada por uma separação amorosa à artista que faz de seu momento íntimo e decepcionante um grande espetáculo, mas um espetáculo para que cada um reflita sobre suas decepções também.”