sábado, junho 28, 2008

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada
A quem só despertaria Um Infante, que viria
De além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado, Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
(Fernando Pessoa)

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