segunda-feira, julho 14, 2008

Ajoelheou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava
e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor:
alivia minha alma, faze com que eu sinta que
Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito,
faze com que eu receba o mundo sem receio,
pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível,
então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso,
mas essa conexão entre esse mistério do mundo e o nosso não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como,
o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesmo pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.”
Clarice Lispector

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